É a economia, burro de esquerda! Mas não só a economia, burro de direita!

Para os fins deste post, os conceitos de direita e esquerda podem ficar vagos. Penso que você identificará os tipos muito facilmente. O tipo de esquerda que tenho em mente nesta breve nota é extremamente comum no meio jurídico nacional. Ele defende explicitamente que legisladores não devem fazer considerações de custo, muito menos o julgador que aplica o dispositivo legislativo. A lei, para essa tendência de pensamento jurídico que me parece hegemônica no Brasil, paira acima da economia. Economia seria algo com o que o poder executivo deveria “se virar” para fazer cumprir a lei. Nesse caso, a política e o direito se impõe às considerações de ordem econômica. Eu chamo esse viés de “pensamento mágico”. Definimos o que é idealmente justo na esfera legislativa e esse arranjo se torna materialmente viável com o sacudir da varinha mágica do executivo sob ordens do judiciário. A esfera do materialmente viável, em suma, não delimita a esfera do justo, mas se expande plasticamente com ela.

Ora, o tipo de direita sobre o qual escrevo aqui jamais subordinaria as leis da economia ao direito ou, mais abstratamente, à justiça. Primeiramente, ele reconhece a economia como uma ciência que possui regularidades independentes da política. Ponto para ele. Por sinal, ele acredita em ciências empíricas e formais, de modo geral, não as assimilando a manifestações culturais quaisquer ou meras relações de poder. De novo, ponto para essa alma que passa ilesa pela pós modernidade.

O problema deste último tipo, que se orgulha de nunca ter pisado em um centro de ciências humanas na vida e acha que só temos aulas de artesanato e ocupação de reitorias nesses centros, é que ele não entende nada de política e acredita que ela é que pode ser reduzida à economia. Em poucas palavras, como ele prioriza o estudo da economia e nem conhece os debates clássicos ou contemporâneos em ética e teorias da justiça (no máximo, sabe deles pelo viés do seu autor favorito), ele acredita, ingenuamente, que as informações que nos são providas, especialmente, pela economia e, eventualmente, por outras ciências são determinantes para a tomada de uma decisão política em vez de outra.

Assim, o tipo de esquerda nem se informa sobre o custo de sua decisão. Se houver uma consequência negativa imprevista, ele simplesmente acredita que poderá lidar com ela balançando sua varinha mágica de novo. Já o tipo de direita se esquece que pesquisar os custos significa apenas entender qual é o tradeoff em jogo, afinal, sempre haverá um, o que, no fim, é a grande lição da economia para o direito. Agora, a economia (e demais ciências) jamais pode nos dizer que não devemos pagar um determinado preço. Uma vez devidamente informados das consequências de uma escolha, ela ainda dependerá de fins. A política é justamente a esfera que determina qual o fim a ser perseguido por legisladores e julgadores. Em outras palavras, ela é uma esfera de valores, e não apenas de preços.

Alguns teóricos sustentam que há fins (e, assim, valores) objetivos. Outros pensam que todos os fins são subjetivos, caso em que a política deveria ser a esfera de sua compatibilização, dado que vivemos em sociedade. De toda forma, esse já é um debate que nos leva para muito além da economia.

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2 pensamentos sobre “É a economia, burro de esquerda! Mas não só a economia, burro de direita!

  1. Ótimo comentário! Por um lado, temos os “burros de esquerda”, que considera que os “direitos sociais” são cláusula pétrea e não levam em conta o custo de tais direitos para a sociedade. Por outro lado, temos os “burros de direita” que idolatram os idealizadores do liberalismo econômico e tratam apenas com números.

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  2. Professora, li o seu “Uma velha pergunta: por que os intelectuais odeiam o capitalismo?” no Estadão – Estado da Arte, e ando recomendando a todos. Parabéns por ajudar o “educated layman” brasileiro a entrar em contato com a parte interessante das Humanidades.

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