Em defesa da torre de marfim

Em defesa da torre de marfim

Sem dúvida, ética é uma das áreas que desperta maior interesse entre estudiosos de filosofia mundo afora. Como professores universitários, não raro, filósofos se deparam com a incumbência de lecionar sobre ética profissional em disciplinas de serviço para diversos cursos de graduação. No entanto, curiosamente, não parece nada usual, ao menos no Brasil, que filósofos e acadêmicos das áreas de humanas em geral se dediquem a um estudo de sua própria ética profissional. Nesse sentido, o artigo “In defense of the ivory tower: Why philosophers should stay out of politics” [“Em defesa da torre de marfim: por que filósofos deveriam ficar de fora da política”], de Bas van der Vossen (publicado online pela Philosophical Psychology, em outubro de 2014), pode ensejar todo um debate ao qual não estamos tão habituados quanto deveríamos, se acadêmicos queremos exercer nossa profissão com responsabilidade.

Em um contexto em que a sociedade brasileira tem discutido ativamente a relação da escola com a política, uma reflexão quanto às questões postas pelo artigo se faz ainda mais necessária, pois é de interesse público, e não apenas da classe dos filósofos ou dos acadêmicos estudiosos da política em geral. Maior ainda é a urgência da discussão quando, de fato, acadêmicos parecem se tornar cada vez mais engajados em movimentos políticos, dados os efeitos práticos que políticas econômicas adotadas pelo governo em tempos de crise têm sobre a academia.

Feito esse preâmbulo, vamos direto à tese de van der Vossen: é moralmente errado, para acadêmicos que trabalham sobre tópicos políticos, se engajar ou ser ativo politicamente. Esses acadêmicos, segundo a tese, não deveriam dar ouvidos aos críticos que os acusam de viver em uma torre de marfim. Pelo contrário, eles deveriam buscar, ativamente, tratar o ambiente universitário, cada vez mais, como uma torre de marfim, não no sentido de serem indiferentes a dados empíricos sobre a política, mas no sentido de evitarem ser eles mesmos os protagonistas de ações políticas.

Os argumentos de van der Vossen em prol dessa tese são, em parte, analíticos e, em (grande) parte, baseados em uma série de resultados de pesquisas empíricas a respeito da tendenciosidade na formação de crenças. Seu pressuposto é que acadêmicos buscam (ou deveriam buscar), primordialmente, a verdade, seja lá o que isso possa significar em matéria de política. Em outras palavras, van der Vossen oferece uma contribuição para a ética profissional de acadêmicos que estudam a política por um viés cognitivista, ou seja, acadêmicos que acreditam desenvolver teorias e argumentos para esclarecer e justificar qual seria a melhor posição em matéria de política ou o que é a política.

As descobertas do autor não farão muito sentido para aqueles que acreditam que sua tarefa, como acadêmicos, é assumir um determinado papel em um combate em curso entre forças opostas. Por sinal, o fato de tantos acadêmicos identificarem-se desta última maneira explica por que a tese de van der Vossen pode soar tão exótica ou esdrúxula hoje em dia. Mas, para aquela minoria que ainda quer entender o mundo racionalmente e julga isso relevante, vamos então aos argumentos de van der Vossen.

O núcleo de sua tese é que o partidarismo, em sentido amplo, decorrente do ativismo é incompatível com a responsabilidade profissional de quem se dedica ao melhor entendimento do mundo político, tanto no que ele é quanto no que ele deveria ser. O acadêmico ativista estaria, desnecessariamente, expondo sua pesquisa à contaminação. Para explicar o ponto, van der Vossen faz uma analogia com uma pesquisadora da área de química que comesse um sanduíche dentro de seu laboratório, enquanto monitora um experimento que poderia ser comprometido pelo contato com poluentes. Essa pesquisadora pode até ser bem sucedida ao evitar que migalhas contaminem o experimento, mas ela teria faltado com a ética profissional por ter se exposto a um risco que poderia ter sido razoavelmente evitado.

Agora, van der Vossen precisa mostrar que o engajamento político, para o acadêmico da área de política, é o equivalente a comer dentro de um laboratório onde se realizam experimentos controlados. É para tanto que ele faz uso de pesquisas psicológicas, que mostram que ativistas, em vez de pesarem argumentos contra e a favor de certas teses, como se espera de um acadêmico, buscam seletivamente confirmar suas posições. Alguns dos experimentos psicológicos que amparam a tese ética de van der Vossen nem sequer envolvem primordialmente o pensamento político. A princípio, eles mostram, por exemplo, uma simples tendência de substituição de respostas a perguntas mais complexas por respostas para perguntas mais simples.

Aplicadas na política, essas pesquisas mostram que, quem tem um partido ou participa de um movimento, substitui respostas para perguntas complexas sobre a melhor política a ser adotada por respostas para perguntas simples sobre a política proposta pelo partido ou grupo político do qual o ativista participa. Diversas pesquisas do tipo, referidas no artigo de van der Vossen, amparam a tese psicológica de que nosso raciocínio é fortemente sensível ao grupo social ao qual pensamos dever satisfações.

Um pouco de reflexão sobre o ponto pode nos fazer notar que, não apenas o grupo oferece o comodismo de respostas prontas para perguntas complexas, mas ele também pode impor sanções como a censura e até a (ameaça de) exclusão àqueles que divergirem das respostas compartilhadas pelo grupo. Em outras palavras, o acadêmico ativista, além de se sujeitar a ser mais suscetível do que a média à preferência por certas respostas, aceita o ônus de não poder acatar certas outras respostas sem se expor a consequências indesejáveis.

Pesquisas citadas por van der Vossen também indicam que, além dos fatores de pertencimento a um grupo, outros fatores que atuam com mais força sobre ativistas do que sobre as demais pessoas fortalecem a tendenciosidade. O mais evidente é o chamado “raciocínio motivado”, que nos leva a substituir o que acreditamos que seja o caso pelo que gostaríamos que fosse verdade. Há também o “efeito halo”, que nos leva a interpretar fatos de tal forma que eles sejam coerentes com outras partes do contexto em que nos engajamos. Para citarmos mais um exemplo, temos ainda a “heurística da disponibilidade”, que faz com que as teses com as quais temos mais familiaridade nos pareçam também as mais plausíveis.

Precisamos enfatizar que essas pesquisas em psicologia sugerem a tendenciosidade da formação de crenças em seres humanos em geral, e não apenas em ativistas. Mas todas elas indicam que, ao ser ativista, o acadêmico, em vez de procurar neutralizar os efeitos desses fatores sobre si mesmo, acaba, justamente, por se expor a todos eles maximamente. E isso mesmo sendo o acadêmico, dentre todas as pessoas, aquela que deveria manter a mente mais aberta a todos os argumentos possíveis. O acadêmico ativista mostra-se, então, como aquele que não apenas come o sanduíche enquanto faz o experimento, mas dá toda uma festa dentro do seu laboratório.

Texto originalmente publicado na Coluna da ANPOF e no blog Estado da Arte, do Estadão.

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A filosofia é indispensável? Para quê?

A filosofia é indispensável? Para quê?

As mudanças previstas na medida provisória relativa à reforma do ensino médio atualizou o debate sobre a razoabilidade da inclusão obrigatória da filosofia, dentre outras disciplinas, no currículo das escolas. Dado o inegável fracasso do nosso sistema educacional em universalizar a alfabetização funcional e o domínio de operações matemáticas básicas, muitas vezes, argumenta-se que o ensino médio deveria ser reduzido à busca desse objetivo mínimo, com a eliminação da obrigatoriedade de disciplinas que avancem para além desse mínimo. Porém, por mais sentido que faça buscarmos concentrar recursos na eliminação de deficiências básicas, que impedem a obtenção das mais variadas formas de conhecimento, também é bom mantermos em mente que o ensino médio não deve ser um mero prolongamento do ensino fundamental com outro nome.

Assim, convém não confundirmos os problemas do ensino fundamental com os problemas do ensino médio, mesmo que venhamos a concluir que uma das soluções para os problemas do ensino fundamental seria o encurtamento do ensino médio em seu benefício. No mais, também é perfeitamente possível nos opormos a proliferação enciclopédica de disciplinas no ensino médio sem advogarmos a supressão de grandes áreas como arte e filosofia. Por sinal, a reflexão sobre a razoabilidade dessa supressão, independentemente dela estar sendo efetivamente proposta pelo governo ou não, é que me interessa fundamentalmente aqui, em especial, no tocante à filosofia.

Primeiramente, tenhamos em vista que o debate sobre a razoabilidade da imposição, por parte do governo federal, de quaisquer disciplinas e conteúdos curriculares às escolas de todo o país deve ser cuidadosamente distinto do debate sobre a razoabilidade de uma formação escolar que não contemple essa ou aquela área. É possível que julguemos sempre criticável que uma escola elimine determinada área de conhecimento de seu currículo obrigatório sem que acreditemos que a questão seja uma matéria de Estado, ainda mais, na esfera federal.

Naturalmente, quando alguém com formação específica na área de filosofia se põe a refletir sobre a razoabilidade de uma formação escolar sem filosofia, sempre existe o risco de uma acusação de corporativismo em caso de resposta negativa. Mas esse é um argumento ad hominem que não deve nos desviar da devida discussão do mérito da questão. Para entrarmos nesse mérito, duas considerações preliminares se fazem relevantes. Primeiro, a filosofia não é uma ciência dentre outras. Podemos pensar em artes, ciências e filosofia como três grandes formas distintas (tanto entre si quanto da forma natural) de recebermos experiências, darmos sentido a elas e nos expressarmos. Em segundo lugar, é preciso entender que a peculiaridade da filosofia é tal que torna difícil sua própria definição. No entanto, parece certo que ela se caracteriza sempre como um discurso de segunda ordem ou um meta-discurso, quer dizer, a filosofia é um discurso sobre outras formas de discursos e práticas.

Exemplificando, se alguém afirma que é errado roubar, a reflexão filosófica será iniciada por perguntas como “por que fazer ou deixar de fazer algo seria errado?”; “o que significa ‘errado’ com respeito a uma ação ou omissão?”; “o que entendemos por ‘roubar’?”; “por que não podemos todos tomar os objetos que por bem entendermos?”; “se há leis que proíbem o roubo, isso significa que roubar é errado?”; “por que seria errado violarmos uma lei e arriscarmos o recebimento de uma sanção?”; etc, etc. Se perseguimos as respostas para todas essas perguntas, logo nos deparamos com certas perplexidades, de tal forma que afirmações que nos pareciam tão triviais podem se revelar como dilemas teóricos até insolúveis.

Ora, nota-se aqui que a filosofia é uma forma de pensar que tem justamente a peculiaridade de nos levar a um distanciamento da prática para a reflexão, e uma reflexão que nunca tem propriamente um fim. Aprender a se guiar pelos meandros dessas reflexões é indispensável? Indispensável para quê?

Bem, talvez, uma questão ainda anterior diga respeito à possibilidade de que um jovem possa aprender a levantar tais questões e refletir com rigor sobre elas. Desde os gregos, afinal, problematiza-se a capacidade do jovem de filosofar antes de amadurecer e mesmo adquirir conhecimentos científicos. Contudo, há que se ter em vista que o ensino médio, de qualquer maneira, não formaria filósofos, como não forma matemáticos ou linguistas. Se bem sucedido, ele apenas colocaria o jovem em contato com todo um universo de indagações e problematizações das respostas. Mas a formação escolar de qualquer um precisa incluir o contato com esse universo, ou uma boa escola pode esperar que, algum dia, o aluno sinta-se inclinado a tentar descobrir do que trata a tal filosofia?

Parece indiscutível que um adulto possa ser perfeitamente funcional sem ter tido qualquer contato com os grandes mestres que levantaram questões e construíram argumentos filosóficos. Ademais, também pode-se dizer sem muito medo de errar que uma ampla formação filosófica não necessita a formação de um bom caráter. Para que então a filosofia seria indispensável? Eu arriscaria responder “para nada”.

Filosofia, como também se costuma pensar desde os gregos, é o tipo de atividade que, se tem valor, tem valor em si. Mas um valor em si também não é, necessariamente, um valor moral ou um valor que cada um de nós deva perseguir (e na mesma proporção) para ter valor como pessoa. Assim, é bem possível, e não é especialmente problemático, que nosso jovem deixe seus estudos de ensino médio com filosofia sem qualquer disposição para desenvolver sua curiosidade filosófica.

Mas, se dizemos que a filosofia tem valor em si, em vez de negar-lhe qualquer valor, estamos também dizendo que é inteligível afirmarmos que alguém capaz de levantar questões filosóficas e refletir sobre elas de forma clara e rigorosa está em melhor situação do que alguém desprovido dessas capacidades. Não é inteligível, afinal, valorizarmos tais capacidades para além de seus efeitos práticos e materiais? Se é, ou seja, se a filosofia tem, de fato, valor intrínseco, uma boa escola pode permitir que um jovem amadureça intelectualmente sem travar qualquer contato com ela?

O fato do jovem estar em uma escola ou ter qualquer espécie de tutor, ao que tudo indica, implicaria que cabe ao tutor ou à escola selecionar previamente ao menos o mínimo que deve ser incluído em sua formação. Assim, se admitirmos que uma escola em nível médio deve selecionar conteúdos, competências e habilidades a serem providos a alunos já alfabetizados e capazes de realizar operações matemáticas, essa escola não deveria colocar esse aluno em contato com formas peculiares de conhecimento dotadas de valor em si? Quer me parecer que a resposta seja “sim”, a menos que entendamos todo o ensino médio, necessariamente, como um ensino técnico-profissionalizante.

Texto originalmente publicado no blog Estado da Arte, do Estadão.

Pode um argumento ser coercivo?

Desde que me mudei para a UEL, com muito gosto, tenho lecionado uma disciplina chamada “filosofia e argumentação” para várias turmas do curso de direito. Assim que assumi as primeiras turmas, em uma conversa informal, eu comentava com um amigo o modo como vejo as diferenças essenciais entre a maneira como o advogado faz uso de um argumento e a maneira como um filósofo o faz. Para o advogado, dizia eu, é essencial a persuasão de um outro. Como é trivial constatar, mais do que ele próprio estar convencido, o advogado deve convencer. Em suma, sua missão é causar a existência de uma crença na mente de uma ou mais pessoas, crença esta que, curiosamente, nem precisa ser compartilhada por ele próprio. Já o filósofo, dizia eu para protesto veemente de meu amigo, não precisa ter a menor preocupação com a persuasão.

Naquele momento, eu não tinha em mente algum juízo de valor negativo sobre um filósofo que tentasse persuadir alguém sobre uma tese filosófica. Apenas me parecia uma tarefa alheia à sua atividade. Mas, nisso, ocorreu a meu amigo uma tese bastante exótica de Nozick, autor que eu mesma ainda não lia à época. Segundo meu amigo, Nozick acreditaria que a tentativa de persuasão por meio de argumentos contaria como uma forma de coerção. Confesso que nem dei muito bola para essa ideia até alguns dias atrás, quando, por acaso, deparei-me com esse texto de Nozick. E não é que achei que ele faz mesmo algum sentido?

Além de examinar o vocabulário usado em debates na língua inglesa, mostrando as metáforas de força, Nozick atenta para o fato de que, em uma tentativa de prova, visamos fazer com que o outro tenha que consentir com a verdade de uma proposição, quer ele queira ou não. É por isso que, conforme ensino aos meus alunos do direito, ao provarmos algo para alguém, não partimos de proposições escolhidas aleatoriamente, mas sim de proposições que sabemos serem aceitas por nosso interlocutor. A intenção é que ele não possa recusar a proposição que queremos que ele aceite, dado que ele aceita nossa premissa. É assim que, metaforicamente falando, nós o forçamos a consentir com o que queremos.

Ora, neste ponto, você dirá que isso não conta como coerção em qualquer sentido relevante por duas razões: primeiro, o instrumento utilizado é a razão do próprio ouvinte; segundo, mesmo que a lógica o obrigue a assentir com a verdade de uma conclusão (dado o fato dele ter aceito a verdade da premissa), ele ainda é livre para se recusar a acreditar. Naturalmente, Nozick concorda que não se trate aqui propriamente de coerção. Ele diz que persuadir alguém, afinal, não é o mesmo que sequestrá-lo para operar à força seu cérebro, colocando nele uma crença. Porém, há espaço para a analogia com a coerção física. Primeiro, é você quem está conduzindo o processo propositadamente. Daí sua escolha da premissa apropriada à prova: aquela que seu ouvinte aceita. Segundo, há, sim, uma punição para quem não aceita a conclusão, aceitando a premissa: a pessoa será tachada de “irracional”.

Claro, essa punição, diz Nozick, é fraca. Eu observo que ela não viola qualquer direito do seu interlocutor, afinal, seu interlocutor não tem o direito de exigir uma avaliação positiva de sua parte. A persuasão por meio de argumentos, penso eu, difere essencialmente das ameaças juridicamente reprováveis, porque, nas últimas, caso o outro recuse dar seu assentimento ao que quero, eu anuncio minha intenção de agredir, diretamente, sua liberdade, ou, ao menos, sua propriedade. Quer dizer, o juridicamente reprovável é o anúncio da intenção de violação de um direito em caso da pessoa que ameaça ser contrariada. Eu não posso ser juridicamente reprovada se eu, simplesmente, anuncio que não falarei mais com você se você não disser ou fizer o que quero. Nozick não explica o ponto dessa maneira, mas parece-me bem consciente dele ao se limitar a dizer que quem força o outro a ter que aceitar uma verdade por meio de argumentos não está sendo “nice”. Ademais, quando ele fala em auto-defesa, para esses casos, ele se limita a mencionar a formulação de contra-argumentos, e não, obviamente, o uso de força física contra quem tenta persuadi-lo.

Enfim, eu ainda não tenho certeza se cabe alguma reprovação moral, ainda que não jurídica, a quem tenta me persuadir da verdade de uma proposição p, em que eu não quero acreditar de bom grado. Mas Nozick tem um ponto, ao menos, em dizer que o objetivo do filósofo não é a persuasão. Gosto da metáfora que ele usa ao dizer que a persuasão é uma matéria do departamento de relações externas da minha mente. O que importa, do ponto de vista do meu próprio sistema de crenças, é o que o outro diz, e não se ele acredita nisso ou não. Concordando com isso, antes de ler esse texto, naquela conversa com meu amigo, eu me lembrei de Trasímaco dizendo a Sócrates para responder o argumento, sem se preocupar em saber se ele, o próprio Trasímaco, acreditava na tese defendida ou não. De fato, como diz Nozick, se o cético me disser que estava brincando, isso não muda em nada o problema que ele me traz.

Mas, se filósofos não são advogados, se seu fim não é persuadir o público quanto à verdade de uma tese, qual é, então, seu propósito? Bom, eu tenho me identificado tanto com Nozick, justamente porque, como digo desde o início, eu escrevo este blog para mim, compartilhando-o com outros que podem ter as mesmas angústias. Certamente, se meu objetivo fosse o convencimento de alguém, eu defenderia minhas posições quando compartilham meus posts em debates de internet (na verdade, eu mesma os compartilharia), ou, ao menos, eu aceitaria convites para publicar meus posts em portais de muito maior repercussão que este humilde blog. Não o faço, porque meu objetivo é a inteligibilidade, e não a persuasão. Aliás, acho que, uma vez, li em Lebrun: “encontrar a inteligibilidade, eis o triunfo do filósofo”.

Por sinal, por ver a filosofia como a derrota da ininteligibilidade, e não de uma tese adversária, estou encantada com a obra Philosophical Explanations, ainda mais do que estive com Anarchy, State, and Utopia. Na verdade, Philosophical Explanations explica o que muitos não entenderam em Anarchy, State, and Utopia. A respeito desta última obra, Nozick foi acusado de não provar suas teses, pois ele não provou nela que existiriam direitos individuais. Ora, não entenderam que Anarchy, State, and Utopia já era uma philosophical explanation! Ou seja, Nozick queria explicar como seria possível um Estado se acreditamos que os seres humanos possuem certas características empiricamente determinadas e, ainda, são dotados de direitos individuais invioláveis. Quer dizer, ele visa construir uma teoria que compatibilize conjuntos de proposições que, aparentemente, se opõem. Isso não é pouca coisa! Inclusive, se for uma tentativa bem sucedida, refuta o anarquista, que argumenta ser impossível tal compatibilização.

Interessantemente, Philosophical Explanations também joga luz na minha leitura do resultado da primeira parte de Anarchy, State, and Utopia. Como eu já disse neste blog, o que Nozick compatibiliza com direitos individuais não é o que os próprios anarquistas entendem por Estado. É uma “state-like entity”. Em Philosophical Explanations, justamente, ele diz que, por vezes, não podemos explicar como é possível exatamente o que a outra parte argumenta ser impossível, mas apenas algo quase tão bom quanto. Muito bem, eu digo que aquela “state-like entity” de Anarchy, State, and Utopia era, para Nozick, algo quase “tão bom” quanto o Estado, e algo que ele teria conseguido compatibilizar com direitos individuais. Em Philosophical Explanations, Nozick vai um pouco além em suas explicações morais, procurando explicar, por exemplo, que podemos ter valor, e, portanto, direitos individuais, mesmo em um mundo causalmente determinado, um problema clássico da história da filosofia. Bom, de minha parte, o que eu quero é entender coisas assim. Naturalmente, toda ajuda é bem-vinda.

 

O "Professor"

Eu não dormi bem de sexta para sábado e nem de sábado para domingo. Passei ambas as noites na estrada. Viajei a trabalho, mas com recursos próprios e sem receber nada para isso. Também não trouxe nenhum certificado comigo. Mas, tudo bem, viajei porque quis afinal. E por que eu quis? Porque viajei para encontrar meu “Professor” e gozar da oportunidade de discutir filosofia com ele por algumas horas. Por sinal, ele também não recebeu dinheiro ou certificado algum por essas horas.

É sempre assim que eu o chamo, “Professor”, ainda que, depois de mais de dez anos, eu tenha mais intimidade com ele do que muitos que o tratam pelo primeiro nome. “Para que tanta formalidade?”, certa vez, me perguntou um amigo que me ouviu ao telefone com ele. Mas não é formalidade. É só respeito por quem, de fato, é e sempre será meu “Professor”.

Nem sempre foi assim, porém. Meu “Professor” tem a mesma consideração por parte de muitos. Parece-me que de todos que são ou já foram seus alunos. Não é raro que a conversa do boteco gire em torno da admiração que todos compartilham por ele. Com isso, eu, que sempre tive tendências subversivas, sempre fui avessa à autoridade, primeiro, interpretei essa admiração, vista de longe e de fora, como bajulação, coisa tão freqüente na academia.

Quando eu imaginaria que alguém tão estimado tanto me estimaria justamente por desafiá-lo? “Eu não gosto de pusilânimes!”, há muito tempo, ele disse para me tranqüilizar. Desde então, foi o que ele me provou a cada dia de convivência. O “Professor” fundou sua própria “escola”, como atesta o título de um artigo do número atual da Studia Kantiana. Entretanto, sua maior obra não é a doutrina dessa escola, explicada em dezenas de publicações, mas sim um modo de filosofar, com paixão e liberdade, afeto e rigor, que ele inspirou em cada um de nós.

Assim, neste dia dos professores, fica minha homenagem a um professor, a este meu “Professor”, bem como a todos aqueles que verdadeiramente amam aprender e se dedicam ao conhecimento, seja lá qual for a profissão que exerçam para viver. Apenas não receberão minhas felicitações aqueles que, apenas por terem sido contratados para um determinado cargo, muitas vezes mal e porcamente ocupado, se acham merecedores da mais alta estima e deferência. Eu, de minha parte, estimo indivíduos excelentes, e não categorias por si só.

Filósofos com certezas demais

Quando adolescente, busquei a filosofia por viver atormentada por dúvidas. Na minha primeira aula do curso de graduação em filosofia, fui logo perguntando pelos fundamentos racionais dos deveres éticos. Quase três anos depois, eu publicava meu primeiro artigo, sobre os problemas inerentes a tentativas de fundamentação última de sistemas de valores.

Àquela época, eu ainda via o cético como o adversário a ser vencido. Era preciso provar que, ao menos em princípio, sempre haveria boas razões para adotarmos uma posição em vez de outra. Eu temia o cético, porque, se todas as posições fossem equivalentes, tudo seria permitido, incluindo as maiores atrocidades.

Então, eu cresci. Em pouco tempo, olhando ao meu redor, eu fiquei perplexa ao ver que outros conseguiam trilhar os caminhos da filosofia tão cheios de certezas. Mais do que isso, eu vi como eles criticam o mundo com base em suas certezas, em vez de criticarem essas próprias certezas. Eu percebi, enfim, que o ceticismo caiu de moda. Nem é que achem que responderam ao cético. É algo muito pior. Eles acham que o cético não precisa de resposta por ser mesmo impossível respondê-lo.

Qual o meu lugar neste mundo? Para o meu espanto, eu percebi que não está reservado a mim o papel de combatente do cético. Eu me tornei a cética. Descobri que não é o ceticismo que leva a atrocidades, mas sim o seu oposto. É preciso, então, que ainda haja quem faça as perguntas para abalar as certezas, antes que elas nos sejam simplesmente impostas à força. A filosofia que sempre viveu dentro de mim, no final das contas, é muito mais Sócrates e muito menos Platão, muito mais filosofia e muito menos religião.

Caridade hermenêutica

Eu devo ser muito lerda mesmo, porque, até hoje, eu ainda não tinha entendido o tal “princípio da caridade hermenêutica”. Do modo como haviam me explicado, esse princípio parecia-me muito mais um argumento de autoridade, afinal, foi-me dito: “você pressupõe que o autor esteja certo, por exemplo, porque ele está sendo estudado a mais tempo do que você existe, portanto, se você acha que o argumento dele é inválido, na verdade, o mais provável é que o argumento dele seja válido e você não o compreenda”.

Claro que essa explicação subserviente e patético do princípio não faz nenhum sentido, afinal, para começar, o princípio não poderia se aplicar apenas à leitura de autores clássicos. Hoje, depois de ter aprendido na prática do que trata o princípio, através do contato com bons e maus parceiros de argumentação, eu vejo que a caridade hermenêutica é um princípio normativo que deve orientar até nossas conversas de bar. Significa pura e simplesmente que, em vez de tentar distorcer as palavras do outro para tornar o argumento do seu interlocutor mais suscetível à refutação, pelo contrário, você atribuirá àquelas palavras o argumento mais forte que elas puderem suportar, mesmo que seja um argumento que, na realidade, nem tenha de fato ocorrido ao seu interlocutor. Você age assim, porque só uma refutação construída dessa forma pode ter verdadeiro valor epistêmico, o que não se equipara ao simples prazer vaidoso da vitória retórica obtida a qualquer custo.

Experimente dialogar com quem não conforma sua conduta discursiva ao princípio em questão. Você passará muito mais tempo explicando o significado das suas palavras originais do que propriamente construindo argumentos e contra-argumentos. Por outro lado, se você tiver o prazer de encontrar em uma conversa alguém que siga o princípio da caridade hermenêutica, você estará diante de alguém que possivelmente dirá melhor do que você mesmo aquilo que você gostaria de ter dito. Isso, por sinal, para os grandes espíritos, será muito mais prazeroso do que meramente ganhar ou perder uma disputa pessoal.

Quem formamos em uma graduação em filosofia?

Definitivamente, eu não sou do tipo que sacraliza a palavra “filósofo”. Quer dizer, eu não ensino aos meus alunos que os filósofos constituiriam uma casta de gênios ou semi-deuses, apartada do comum dos mortais, cabendo então àqueles mortais que se colocam como alunos de cursos de filosofia o papel de sacerdotes que fariam a intermediação entre os leigos e os iluminados. Não, filósofo, para mim, é qualquer um que se ponha consistentemente a elaborar um sistema claro e bem articulado de posições a respeito de um certo conjunto de questões reflexivas sobre os princípios e valores comumente aceitos em um ou mais dos diversos campos do saber; ou ainda, filósofo também pode ser aquele que meramente saiba formular questões do tipo. Pensando assim, naturalmente, eu incentivo meus alunos a se arriscarem e perseguirem o ideal de, um dia, formularem sua própria filosofia, que, afinal, para merecer esse nome, não precisa apresentar alguma tese inédita capaz de revolucionar a história da humanidade.

Acontece que, dificilmente, ao final de uma graduação em filosofia, o estudante já progrediu o bastante para se apresentar como filósofo, mesmo no meu sentido minimalista. Com isso, eu fico pensando se um curso de filosofia deveria ser considerado um fracasso por causa disso. Concluo que não, porque, a bem da verdade, como sabiamente já reconheceu a própria ANPOF, filósofos nem sequer precisam de cursos formais de filosofia, da mesma forma que graduados em filosofia podem ser, mas não precisam ser filósofos.

Agora, o que se espera então de um graduado de filosofia? Eu pensava nisso há pouco e a pergunta, na verdade, sempre me ocorre quando corrijo avaliações de meus alunos do curso de filosofia. Eu acredito que não tenho o direito de cobrar dos meus alunos que eles já consigam se posicionar de modo autoral diante de um argumento filosófico. No entanto, tenho a convicção de que posso cobrar do meu aluno que ele seja capaz de produzir um texto, oral ou escrito, expondo minuciosa e precisamente um argumento filosófico apresentado por outro. Nesse sentido, fazer um curso de filosofia, não é fazer filosofia, mas é aprender a ler e escrever textos sobre filosofia.

Parece pouco. Alguns colegas dirão que tenho uma visão modesta e até medíocre sobre uma graduação em filosofia. Já eu me pergunto, toda vez que corrijo uma prova: este aluno saberia ensinar isto a alguém? É com tristeza, e uma boa dose de angústia, que, quase na maioria das vezes, respondo que não. Formar um aluno, muitas e muitas vezes, é então fazer a aposta de que ele conseguirá desabrochar como professor de filosofia em alguma parte de seu caminho. Por isso mesmo, até mais do que aquilo que se apresenta no aluno como uma competência adquirida, ao avaliarmos, vale que estejamos atentos para uma postura: o aluno deve entender que, no final das contas, é muito mais grave ser um professor de filosofia do que um filósofo. Professores, afinal, têm alunos…