A filosofia é indispensável? Para quê?

A filosofia é indispensável? Para quê?

As mudanças previstas na medida provisória relativa à reforma do ensino médio atualizou o debate sobre a razoabilidade da inclusão obrigatória da filosofia, dentre outras disciplinas, no currículo das escolas. Dado o inegável fracasso do nosso sistema educacional em universalizar a alfabetização funcional e o domínio de operações matemáticas básicas, muitas vezes, argumenta-se que o ensino médio deveria ser reduzido à busca desse objetivo mínimo, com a eliminação da obrigatoriedade de disciplinas que avancem para além desse mínimo. Porém, por mais sentido que faça buscarmos concentrar recursos na eliminação de deficiências básicas, que impedem a obtenção das mais variadas formas de conhecimento, também é bom mantermos em mente que o ensino médio não deve ser um mero prolongamento do ensino fundamental com outro nome.

Assim, convém não confundirmos os problemas do ensino fundamental com os problemas do ensino médio, mesmo que venhamos a concluir que uma das soluções para os problemas do ensino fundamental seria o encurtamento do ensino médio em seu benefício. No mais, também é perfeitamente possível nos opormos a proliferação enciclopédica de disciplinas no ensino médio sem advogarmos a supressão de grandes áreas como arte e filosofia. Por sinal, a reflexão sobre a razoabilidade dessa supressão, independentemente dela estar sendo efetivamente proposta pelo governo ou não, é que me interessa fundamentalmente aqui, em especial, no tocante à filosofia.

Primeiramente, tenhamos em vista que o debate sobre a razoabilidade da imposição, por parte do governo federal, de quaisquer disciplinas e conteúdos curriculares às escolas de todo o país deve ser cuidadosamente distinto do debate sobre a razoabilidade de uma formação escolar que não contemple essa ou aquela área. É possível que julguemos sempre criticável que uma escola elimine determinada área de conhecimento de seu currículo obrigatório sem que acreditemos que a questão seja uma matéria de Estado, ainda mais, na esfera federal.

Naturalmente, quando alguém com formação específica na área de filosofia se põe a refletir sobre a razoabilidade de uma formação escolar sem filosofia, sempre existe o risco de uma acusação de corporativismo em caso de resposta negativa. Mas esse é um argumento ad hominem que não deve nos desviar da devida discussão do mérito da questão. Para entrarmos nesse mérito, duas considerações preliminares se fazem relevantes. Primeiro, a filosofia não é uma ciência dentre outras. Podemos pensar em artes, ciências e filosofia como três grandes formas distintas (tanto entre si quanto da forma natural) de recebermos experiências, darmos sentido a elas e nos expressarmos. Em segundo lugar, é preciso entender que a peculiaridade da filosofia é tal que torna difícil sua própria definição. No entanto, parece certo que ela se caracteriza sempre como um discurso de segunda ordem ou um meta-discurso, quer dizer, a filosofia é um discurso sobre outras formas de discursos e práticas.

Exemplificando, se alguém afirma que é errado roubar, a reflexão filosófica será iniciada por perguntas como “por que fazer ou deixar de fazer algo seria errado?”; “o que significa ‘errado’ com respeito a uma ação ou omissão?”; “o que entendemos por ‘roubar’?”; “por que não podemos todos tomar os objetos que por bem entendermos?”; “se há leis que proíbem o roubo, isso significa que roubar é errado?”; “por que seria errado violarmos uma lei e arriscarmos o recebimento de uma sanção?”; etc, etc. Se perseguimos as respostas para todas essas perguntas, logo nos deparamos com certas perplexidades, de tal forma que afirmações que nos pareciam tão triviais podem se revelar como dilemas teóricos até insolúveis.

Ora, nota-se aqui que a filosofia é uma forma de pensar que tem justamente a peculiaridade de nos levar a um distanciamento da prática para a reflexão, e uma reflexão que nunca tem propriamente um fim. Aprender a se guiar pelos meandros dessas reflexões é indispensável? Indispensável para quê?

Bem, talvez, uma questão ainda anterior diga respeito à possibilidade de que um jovem possa aprender a levantar tais questões e refletir com rigor sobre elas. Desde os gregos, afinal, problematiza-se a capacidade do jovem de filosofar antes de amadurecer e mesmo adquirir conhecimentos científicos. Contudo, há que se ter em vista que o ensino médio, de qualquer maneira, não formaria filósofos, como não forma matemáticos ou linguistas. Se bem sucedido, ele apenas colocaria o jovem em contato com todo um universo de indagações e problematizações das respostas. Mas a formação escolar de qualquer um precisa incluir o contato com esse universo, ou uma boa escola pode esperar que, algum dia, o aluno sinta-se inclinado a tentar descobrir do que trata a tal filosofia?

Parece indiscutível que um adulto possa ser perfeitamente funcional sem ter tido qualquer contato com os grandes mestres que levantaram questões e construíram argumentos filosóficos. Ademais, também pode-se dizer sem muito medo de errar que uma ampla formação filosófica não necessita a formação de um bom caráter. Para que então a filosofia seria indispensável? Eu arriscaria responder “para nada”.

Filosofia, como também se costuma pensar desde os gregos, é o tipo de atividade que, se tem valor, tem valor em si. Mas um valor em si também não é, necessariamente, um valor moral ou um valor que cada um de nós deva perseguir (e na mesma proporção) para ter valor como pessoa. Assim, é bem possível, e não é especialmente problemático, que nosso jovem deixe seus estudos de ensino médio com filosofia sem qualquer disposição para desenvolver sua curiosidade filosófica.

Mas, se dizemos que a filosofia tem valor em si, em vez de negar-lhe qualquer valor, estamos também dizendo que é inteligível afirmarmos que alguém capaz de levantar questões filosóficas e refletir sobre elas de forma clara e rigorosa está em melhor situação do que alguém desprovido dessas capacidades. Não é inteligível, afinal, valorizarmos tais capacidades para além de seus efeitos práticos e materiais? Se é, ou seja, se a filosofia tem, de fato, valor intrínseco, uma boa escola pode permitir que um jovem amadureça intelectualmente sem travar qualquer contato com ela?

O fato do jovem estar em uma escola ou ter qualquer espécie de tutor, ao que tudo indica, implicaria que cabe ao tutor ou à escola selecionar previamente ao menos o mínimo que deve ser incluído em sua formação. Assim, se admitirmos que uma escola em nível médio deve selecionar conteúdos, competências e habilidades a serem providos a alunos já alfabetizados e capazes de realizar operações matemáticas, essa escola não deveria colocar esse aluno em contato com formas peculiares de conhecimento dotadas de valor em si? Quer me parecer que a resposta seja “sim”, a menos que entendamos todo o ensino médio, necessariamente, como um ensino técnico-profissionalizante.

Texto originalmente publicado no blog Estado da Arte, do Estadão.

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Menos militância, mais filosofia 

Uma das coisas que mais me desagradam no que eu chamo de “libertarianismo vulgar” é como estão sempre discutindo com algum espantalho marxista ou, no máximo, com um socialista igualmente vulgar, em vez de estudarem a sério os grandes teóricos da política e do direito. É aí que você ouve bobagens do tipo “não é direito só porque alguém escreveu em um pedaço de papel” e tem vontade de responder: “filho, vai estudar, porque ninguém está dizendo que seja (exceto por algum amigo boboca seu)”.

Claro que o que está em jogo nessas discussões é algo muito sério para ser tratado com tanta leviandade: a legitimidade do ato legislativo. O libertário (restrinjo-me ao anarquista, não falo de liberais clássicos), por não aceitar autoridade política, precisa insistir que o direito precede a legislação, que seria então uma espécie de tomada da sociedade por parte de um grupo que controla o aparelho coercitivo. A majoritária aceitação da legislação, por sua vez, seria o resultado, também de cima para baixo, de propaganda, controle de mídias, educação estatal, etc. Deveríamos, portanto, romper com essa aceitação e restituir na sociedade o direito costumeiro e/ou natural.

Agora, se você quer refletir a sério sobre essas questões, em vez de panfletar, você tem que estudar o fenômeno jurídico como tal e tentar entender se o nascimento da legislação, ou seja, da autoridade para fazer e modificar leis, não seria um produto de uma mudança espontânea na sociedade, quando agrupamentos humanos obtêm vantagens evolutivas por meio da aceitação social de técnicas legislativas.

Hart, por exemplo, mostra como diversos aspectos de um sistema legal não seriam compreensíveis se a lei fosse entendida como meras ordens de um soberano habitualmente obedecido. Daí que minha questão seja: as regras de aceitação social da legislação de que nos fala Hart seriam um simples equívoco ou mero resultado de propaganda do próprio soberano, como quer o libertário, ou uma evolução social necessária a sociedades amplas e complexas? Faz sentido pensar o direito costumeiro (direito não legislado) como arranjo social moderno?

Que o costume ou simples convenções possam funcionar como lei em recortes temporais e territoriais bem restritos parece claro. Hume já aceitava o caráter dispensável do governo em pequenas comunidades. A literatura que eu tenho sobre evidências empíricas da lei sem legislação sempre se restringe a uma curta experiência temporal de pequenos grupos. Não resolve o problema. Eu continuo pensando sobre ele, ao estudar o que, afinal, é o próprio direito. Claro que não é algo simplesmente escrito em uma folha de papel.

É a economia, burro de esquerda! Mas não só a economia, burro de direita!

Para os fins deste post, os conceitos de direita e esquerda podem ficar vagos. Penso que você identificará os tipos muito facilmente. O tipo de esquerda que tenho em mente nesta breve nota é extremamente comum no meio jurídico nacional. Ele defende explicitamente que legisladores não devem fazer considerações de custo, muito menos o julgador que aplica o dispositivo legislativo. A lei, para essa tendência de pensamento jurídico que me parece hegemônica no Brasil, paira acima da economia. Economia seria algo com o que o poder executivo deveria “se virar” para fazer cumprir a lei. Nesse caso, a política e o direito se impõe às considerações de ordem econômica. Eu chamo esse viés de “pensamento mágico”. Definimos o que é idealmente justo na esfera legislativa e esse arranjo se torna materialmente viável com o sacudir da varinha mágica do executivo sob ordens do judiciário. A esfera do materialmente viável, em suma, não delimita a esfera do justo, mas se expande plasticamente com ela.

Ora, o tipo de direita sobre o qual escrevo aqui jamais subordinaria as leis da economia ao direito ou, mais abstratamente, à justiça. Primeiramente, ele reconhece a economia como uma ciência que possui regularidades independentes da política. Ponto para ele. Por sinal, ele acredita em ciências empíricas e formais, de modo geral, não as assimilando a manifestações culturais quaisquer ou meras relações de poder. De novo, ponto para essa alma que passa ilesa pela pós modernidade.

O problema deste último tipo, que se orgulha de nunca ter pisado em um centro de ciências humanas na vida e acha que só temos aulas de artesanato e ocupação de reitorias nesses centros, é que ele não entende nada de política e acredita que ela é que pode ser reduzida à economia. Em poucas palavras, como ele prioriza o estudo da economia e nem conhece os debates clássicos ou contemporâneos em ética e teorias da justiça (no máximo, sabe deles pelo viés do seu autor favorito), ele acredita, ingenuamente, que as informações que nos são providas, especialmente, pela economia e, eventualmente, por outras ciências são determinantes para a tomada de uma decisão política em vez de outra.

Assim, o tipo de esquerda nem se informa sobre o custo de sua decisão. Se houver uma consequência negativa imprevista, ele simplesmente acredita que poderá lidar com ela balançando sua varinha mágica de novo. Já o tipo de direita se esquece que pesquisar os custos significa apenas entender qual é o tradeoff em jogo, afinal, sempre haverá um, o que, no fim, é a grande lição da economia para o direito. Agora, a economia (e demais ciências) jamais pode nos dizer que não devemos pagar um determinado preço. Uma vez devidamente informados das consequências de uma escolha, ela ainda dependerá de fins. A política é justamente a esfera que determina qual o fim a ser perseguido por legisladores e julgadores. Em outras palavras, ela é uma esfera de valores, e não apenas de preços.

Alguns teóricos sustentam que há fins (e, assim, valores) objetivos. Outros pensam que todos os fins são subjetivos, caso em que a política deveria ser a esfera de sua compatibilização, dado que vivemos em sociedade. De toda forma, esse já é um debate que nos leva para muito além da economia.

Propriedade e Impostos


Alguns esclarecimentos conceituais se fazem necessários em virtude de um post mencionando impostos que escrevi recentemente. Todos já nos deparamos com uma espécie de libertarianismo vulgar, digamos assim, praticado ferozmente na internet por jovens cuja formação filosófica não parece ultrapassar muito a leitura auto-didata de pensadores como H. H. Hoppe e similares. Esses jovens não concluem que imposto é roubo após discutir civilizadamente com proponentes de teorias rivais. Eles partem do princípio de que imposto é roubo e acusam o oponente de degeneração moral, valendo-se de agressões verbais e deboches imagéticos. Vejamos então os conceitos.

Primeiramente, temos que distinguir a propriedade da posse. Posse é um conceito descritivo. Não comporta qualquer normatividade. É a mera detenção física ou controle de um corpo. Propriedade, por sua vez, é um conceito normativo, e não descritivo. Significa um direito à posse ou ao controle, com exclusão de outros. Se um indivíduo é proprietário de um objeto cujo uso é pretendido por outro, o segundo precisa da autorização do primeiro para tal uso. Já o não proprietário não pode impedir o uso do proprietário de seu objeto, a menos que este último esteja fazendo uso de seu objeto de forma a violar algum outro direito equivalente ou superior.

Nota-se que o conceito de propriedade não é nenhuma trivialidade. Por que um indivíduo teria propriedade sobre um corpo, ainda que fosse o seu próprio? Direitos não são realidades observáveis. São alegações contrafatuais. Seu sentido e seu fundamento não são evidentes. Quando estendemos nossos direitos sobre corpos diferentes dos nossos, o desafio filosófico fica ainda maior. Por que eu poderia excluir outros do uso de objetos que são tão disponíveis a eles quanto a mim? Certamente, essa não é uma questão para ser estudada por um único viés, dando-se o assunto por encerrado, um vício comum no auto-didata.

E o imposto? O imposto é o recolhimento, por parte de uma autoridade, de um bem que está em posse de um indivíduo, mas não é propriedade dele, mas sim da coletividade. Assim, a autoridade pode fazer uma ameaça de uso da força caso o indivíduo persista na posse do que não é seu por direito. Temos aqui outro conceito normativo. O imposto pressupõe a legitimidade de uma autoridade e o próprio conceito de propriedade, agora, pensado para todos, em nome de quem fala a autoridade, com exclusão de cada um em particular.

Conclui-se que 1) se não existe tal autoridade; 2) se não existe propriedade coletiva; 3) se existe somente propriedade individual; 4) se o indivíduo cobrado pela suposta autoridade é o legítimo proprietário do bem, então sempre que alguém se colocar como uma autoridade, pretendendo, por ameaças, fazer passar a posse desse indivíduo para a coletiva, ele estará roubando uma propriedade privada.

Por outro lado, 1) se existe autoridade legítima para falar em nome da sociedade; 2) se existe também propriedade coletiva; 3) se o bem em posse de um indivíduo é de propriedade coletiva, então, sempre que o indivíduo pretender continuar de posse desse bem, ele estará roubando a sociedade. Mas como seria possível que o indivíduo que gerou o valor para um objeto fosse o ladrão do bem que ele não tomou de outrem, mas apenas se recusa a entregar para o uso coletivo?

Classicamente, teorias que reconhecem a propriedade privada e o imposto tratam o último como um custo de manutenção da sociedade sem a qual não haveria bem algum para ser propriedade privada. Se eu compro um carro, eu pago por ele aos indivíduos envolvidos em sua produção e comércio. Mas um carro só existe, porque existe toda uma sociedade. Se a sociedade desaparece, segue o argumento, o que nos resta é uma luta diária pela sobrevivência, com paus e pedras. Daí que, se a ordem social depender da figura de uma autoridade administrando a justiça e protegendo-a de ataques externos, essa figura pode e deve cobrar os custos disso. Aquele que se recusa a pagar os custos passa a ser o chamado “carona”: ele se aproveita do pagamento feito pelos outros e os onera mais por não fazer sua parte.

Mas a sociedade precisa de uma organização que a administre de forma centralizada, ou ela pode funcionar com cada um fazendo seus próprios arranjos, coletivamente ou não, para administrar a justiça e proteger direitos? Essa é uma boa discussão, que não deveria ser reduzida a trocas de insultos infantis. Só um néscio, afinal, consideraria evidente a possibilidade da administração privada da justiça e, portanto, que imposto é roubo.

Menos cartilhas de paz e amor, mais teoria dos jogos

Vi a matéria do Fantástico sobre as equipes de socorristas que agravavam deliberadamente o estado de saúde de pacientes que precisavam de atendimento emergencial, para que eles pudessem ser internados em UTIs, de tal forma que o tratamento ficasse mais caro para o Estado e mais rentável para os hospitais. De um ponto de vista estritamente econômico, você nota que há incentivos para o desperdício de recursos, portanto, algo está errado no sistema.

Um bom sistema é aquele que incentiva a otimização no uso dos recursos escassos. Mas não é só esse o nosso problema. Um ser humano civilizado tem limites morais para a busca do seu ganho pessoal. Nenhuma sociedade pode sobreviver sem essas restrições ao cálculo egoísta. O maior problema do Brasil é que temos um número grande demais de indivíduos que não têm o menor apreço por esses limites. Provavelmente, isso se deve ao fato de que a vantagem do ganho imediato é sempre mais sedutora do que a vantagem longínqua da observância de limites. Sem contar que o grande número de violações de limites é ele próprio um incentivo ainda maior para que cada um não respeite esses limites, pois você não pode ser o único a respeitá-los em hipótese alguma. A teoria dos jogos mostra isso. O que fazer então?

A solução, penso eu, é a mais antiga e tradicional já descoberta pela humanidade: punição exemplar. A punição existe para fazer com que o ganho longínquo e indireto da observância de limites morais coincida com seus interesses mais imediatos. Ademais, sabendo que os outros têm um incentivo para observar limites, só por isso, você ganha um motivo maior para observá-los também. De novo, é o que a teoria dos jogos contemporânea, que já tinha sido intuída por filósofos clássicos, ensina.

O Brasil é uma sociedade que acha que pode sobreviver como tal sem punir transgressores dos limites mais elementares. Em vez disso, acham que vão mudar a natureza humana com educação. Educação tem seu papel. Mas só se você muda primeiro o sistema de incentivos, sendo realista quanto ao que é a natureza humana, em vez de querer nos transformar em anjos por meio de cartilhas, campanhas de TV e disciplinas de bondades nas escolas. Em suma, é preciso mudar o sistema atual para um que recompense a economia de recursos e puna severamente a transgressão de limites à ganância. Ou isso ou continuamos a ser esse agrupamento humano lamentável que somos.

Imposto não é roubo! Mas compensa?

No livro que estou lendo, o soldado vai confiscar grãos dos camponeses de sua terra para alimentar o exército amigo durante a batalha, deixa o bastante para eles não morrerem de fome e se justifica dizendo que seria pior se os invasores passassem pelo exército amigo (estuprariam, matariam e queimariam tudo). Faz sentido. Creio que Hume deva ter razão e o Estado surja, ao menos em parte, desses preparativos necessários para a guerra, como um descendente dessas lideranças.

Claro, você pode dizer que o camponês deveria ter o direito de não entregar o que é seu para o soldado e tentar a sorte sozinho (ou de outra forma qualquer) contra o inimigo. Pode ser. Mas suspeito que um povo que parasse para fazer esse tipo de consideração em meio a uma invasão não tenha sobrevivido para contar sua história.

Hoje em dia, a situação não mudou tanto assim. Fronteiras são mais estáveis, é verdade. Como há muito mais gente dentro delas, como elas se estendem para muito mais longe e podem ser cruzadas por muitos indivíduos, a insegurança é mais presente do lado de dentro, digamos assim.

Insegurança significa que o mal pode se abater sobre você a qualquer instante. É a incerteza do momento, do lugar e de sua forma que molda o sentimento de angústia do qual todos somos vítimas, sem a perspectiva de uma indenização por esse dano constante.

Compare, agora, com a violência do Estado moderno. Você pode se revoltar por pagar seus impostos. Pode julgar que são indevidos. Mas não me parece que alguém se sinta quanto a impostos modernos como se sente quanto à violência urbana moderna. Imposto não é roubo. Impostos são regrados e, portanto, perfeitamente previsíveis. Você sabe o quanto vão cobrar, quando, onde, de que maneira, quais as consequências exatas de não pagar, etc. Talvez, você sinta medo de não conseguir pagar seus impostos e ter que fechar seu negócio, por exemplo. Mas isso ainda parece melhor do que ter medo de poder ter seu negócio invadido a qualquer instante por gente que pode exigir qualquer coisa sob qualquer tipo de ameaça. Isso é roubo.

Pois é, o Estado moderno, no mínimo, deveria significar a troca da violência desregrada (do roubo) pela regrada (pelo imposto). Mas e quando ele próprio parece confuso e desregrado? E quando ele se soma à violência aleatória e sem limites, a qual continuamos expostos, em vez de substituí-la? Ele ainda pode reivindicar obediência em algum sentido? Você pode levar os grãos do camponês se não pode protegê-lo do terror do exército invasor?

José, João e uma certa concepção de justiça

José, João e uma certa concepção de justiça

José e João nasceram e foram criados no mesmo bairro, onde frequentaram também a mesma escola, ambos destacando-se entre os melhores alunos. As semelhanças entre eles, porém, encerram-se por aí. Não tinham os mesmos objetivos de vida, não compartilhavam os mesmos valores e não encontravam prazer no mesmo tipo de distração.

José foi um menino introspectivo e um leitor voraz desde a adolescência. Sua única ambição era poder dedicar sua vida às letras, o que lhe proporcionava um prazer intrínseco. Quem faz aquilo que gosta não trabalha nunca, dizia ele. Acabou se tornando professor de filosofia em uma universidade respeitada. Para quem apreciava, sobretudo, a contemplação da natureza, a companhia dos amigos e a leitura dos clássicos, seu salário, pouco mais de R$10.000,00 líquidos ao mês, era mais do que suficiente.

Já João, bom, João nunca estudou propriamente por prazer. Seu afinco nos estudos visavam um objetivo. Ele sonhava com carros esportivos, barcos velozes, viagens de luxo, restaurantes sofisticados… Assim, mesmo que João até tivesse suas preferências em certas áreas, ele escolheu aquela profissão que julgou acertadamente ser a mais demandada pela sociedade.

Sua ambição o fez optar por uma carreira em que ele pudesse prestar serviços bem remunerados, desde que se destacasse como profissional. João não mediu esforços para se qualificar mais do que qualquer outro em sua área. Tornou-se um engenheiro de ponta, disputado pelo mercado. Seus serviços, finalmente, eram tão valorizados pela sociedade que ele fechou um contrato que lhe garantiu um salário mensal bruto de R$109.000,00. E, veja bem, ele não “ganhava” esse salário. Afinal, exceto pela mesada do pai, João nunca “ganhou” dinheiro. Obviamente, ele produzia mais do que esse valor para sua companhia e, por isso, assim ele era pago por seus serviços.

José era feliz. João era feliz. Mas nem tudo era perfeito em suas vidas (cada uma à sua maneira) bem sucedidas. Ocorre que José e João viviam sob um Estado corrupto, ineficiente e inconsequente. Como resultado, esse Estado se tornou incrivelmente endividado e, portanto, ávido por receitas.

É verdade que José e João já deixavam uma boa parte de seus vencimentos com esse Estado, além de terem que usar outra parte de seus salários líquidos para pagarem outros impostos diretos e indiretos. Mas isso ainda era pouco para aquele Estado insaciável e fora de controle.

Quanto a José, felizmente, não ocorreu a ninguém que ele devesse ser forçado (digamos, 2 horas por dia) a usar sua capacidade em algo mais útil para a geração de valor, para que ele pudesse contribuir mais ainda com o financiamento daquela gigantesca máquina pública. João é que estava na mira. Como ele optou pelo caminho da utilidade e se preparou para oferecer bens que a sociedade demandava grandemente, pensou-se que ele deveria ser como que punido por sua alta produtividade. Sugeriu-se que nada menos do que 40% de sua remuneração deveriam ir diretamente para o buraco negro estatal.

Agora, devemos nos perguntar o quanto essa curiosa concepção de justiça, que persegue os que mais geram valor à sociedade, teria afetado as decisões do ambicioso João se já fosse vigente à época de suas escolhas iniciais. Ele faria os mesmos sacrifícios se soubesse que, quanto mais útil ele fosse reconhecido pela sociedade, mais pagaria por isso, chegando a tanto no ápice? E o que João decidiria diante da oportunidade de ofertar seus valiosos serviços em outra sociedade, uma que não lhe impusesse um ônus tão grande por fazer bem feito o que tantos querem que seja feito e poucos podem fazer? E se João encontrasse ainda uma sociedade que lhe impusesse um ônus até maior, mas lhe oferecendo em troca a qualidade de vida que sequer se poderia comprar na sua sociedade de origem?

No fim, João quer dinheiro, tantos querem o que João está disposto a produzir em troca desse dinheiro e todos perdem quando o Estado gigante, ignorando o quanto João já está servindo à sociedade para ser tão bem recompensado por ela, cobra essa mesma utilidade uma segunda vez na forma de pesados tributos.